Ligações abusivas: o telefone toca e a paciência acaba
Certamente você já deve ter recebido várias ligações indesejadas que lhe incomodam durante todo o dia. O telefone toca durante uma reunião, interrompe o almoço, atrapalha o descanso ou desperta alguém no meio da tarde. Quando você atende, escuta alguns segundos de silêncio. Em outros casos, uma gravação automática inicia uma oferta que você nunca pediu. E, infelizmente, existem situações ainda mais graves: golpistas utilizam essas chamadas para tentar enganar consumidores e obter informações pessoais.
Esse problema se tornou tão comum que praticamente faz parte da rotina dos brasileiros. Foi justamente para tentar frear esse abuso que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) decidiu prorrogar até 31 de outubro de 2028 as medidas cautelares que combatem as chamadas abusivas e as chamadas automáticas conhecidas como robocalls.
Segundo a agência, o conjunto de ações atualmente em vigor consegue impedir que cerca de 85% dessas ligações cheguem aos consumidores. A decisão amplia por mais dois anos regras que venceriam originalmente em 2026.

O que muda na prática?
Na realidade, as regras permanecem praticamente as mesmas.
Empresas que realizarem mais de 100 mil chamadas curtas por dia poderão sofrer sanções automáticas. A Anatel considera como “chamada curta” aquelas ligações que duram até seis segundos, geralmente utilizadas por sistemas automáticos para verificar se determinado número está ativo.
Quando pelo menos 85% das chamadas realizadas por uma empresa forem classificadas como curtas ou não completadas, a operadora poderá bloquear temporariamente a origem dessas ligações.
A punição prevê a suspensão da capacidade de realizar novas chamadas por um período de 15 dias.
Além disso, operadoras como Claro, Vivo, TIM e Oi continuam obrigadas a enviar relatórios periódicos à Anatel, monitorar irregularidades e combater o uso de números falsos utilizados para mascarar a identidade real de quem está ligando.
O lado positivo: finalmente alguém está fazendo alguma coisa
É importante reconhecer que a iniciativa da Anatel representa um avanço significativo.
Durante anos, consumidores ficaram praticamente sem qualquer proteção diante do bombardeio de chamadas automáticas.
Hoje, existe um sistema de monitoramento, há bloqueios automáticos, ferramentas de denúncia e até mecanismos que permitem consultar a titularidade de determinados números corporativos.
Também merece destaque a continuidade do programa Não Me Perturbe, que possibilita ao cidadão bloquear ofertas de telemarketing de empresas de telecomunicações e crédito consignado.
São medidas que ajudam a reduzir parte do problema.
Mas apenas parte dele.
A fragilidade que a Anatel ainda não conseguiu resolver
Existe uma questão que precisa ser debatida com honestidade.
As medidas da Anatel funcionam relativamente bem contra empresas legalmente registradas.
Porém, quem mais incomoda o cidadão atualmente nem sempre são empresas formais.
Muitas vezes são estruturas clandestinas.
E é justamente aí que surge uma das maiores fragilidades do sistema.
Uma empresa registrada possui CNPJ, contratos com operadoras e infraestrutura identificável. Quando ela descumpre as regras, pode ser localizada, investigada e punida.
Já uma operação clandestina funciona de maneira completamente diferente.
Esses grupos costumam utilizar centenas ou até milhares de números espalhados por diversos DDDs do país.
Quando um número é bloqueado, outro entra imediatamente em operação.
Se um chip é cancelado, vários outros já estão disponíveis.
É uma espécie de “jogo de gato e rato” tecnológico.
Na prática, a operadora bloqueia um número hoje e amanhã o mesmo grupo está ligando por outro número diferente.
O consumidor continua recebendo chamadas.
Apenas muda o número exibido na tela.
O problema do mascaramento de chamadas
Outra fragilidade importante é a tecnologia conhecida como spoofing.
Nesse tipo de fraude, o número exibido no telefone nem sempre corresponde ao número real que originou a ligação.
Golpistas conseguem fazer chamadas utilizando números aparentemente legítimos, inclusive simulando números de bancos, órgãos públicos ou empresas conhecidas.
Quantas pessoas já receberam ligações supostamente vindas do banco?
Quantas receberam chamadas que aparentavam ser do INSS, da Receita Federal ou de alguma operadora?
Em muitos casos, o número exibido parece legítimo, mas trata-se de uma falsificação.
Esse é um desafio técnico muito maior do que simplesmente bloquear números.
O crescimento dos golpes telefônicos
Outro aspecto preocupante é que muitas robocalls funcionam como uma etapa preliminar para golpes.
A chamada curta de poucos segundos serve apenas para confirmar que existe alguém utilizando aquele número.
Depois dessa confirmação, o telefone passa a integrar bancos de dados comercializados ilegalmente.
Dias depois começam as tentativas de fraude:
- Falsos atendentes bancários;
- Golpes do PIX;
- Falsas centrais de suporte;
- Falsos representantes do INSS;
- Golpes envolvendo empréstimos;
- Falsas promoções;
- Tentativas de roubo de contas de WhatsApp.
Ou seja, o problema das chamadas abusivas não é apenas um incômodo.
Ele também pode representar um risco à segurança digital dos cidadãos.
A tecnologia pode ajudar mais do que os bloqueios tradicionais
Enquanto as operadoras tentam combater o problema pela infraestrutura telefônica, empresas de tecnologia estão desenvolvendo soluções cada vez mais inteligentes.
O Google, por exemplo, investe há anos em sistemas de identificação de spam integrados ao Android.
Em muitos aparelhos, chamadas suspeitas já aparecem automaticamente com alertas como:
- “Possível spam”;
- “Suspeita de fraude”;
- “Telemarketing”;
- “Número denunciado por usuários”.
Em alguns modelos mais avançados, a inteligência artificial consegue até filtrar chamadas antes mesmo de o usuário ser interrompido.
A Microsoft, por sua vez, contribui indiretamente através de soluções de segurança baseadas em inteligência artificial que ajudam empresas e governos a detectar comportamentos fraudulentos em massa.
Já o Gov.br vem ampliando mecanismos de autenticação digital que reduzem a necessidade de contatos telefônicos para confirmação de identidade, diminuindo oportunidades para criminosos explorarem fraudes por telefone.
Bancos também passaram a investir em aplicativos que verificam dispositivos, comportamentos suspeitos e autenticação multifator, reduzindo a eficácia de golpes iniciados por ligações telefônicas.
O que ainda precisa ser feito
Embora a prorrogação das medidas até 2028 seja positiva, ela não resolve o problema de forma definitiva.
Algumas ações poderiam tornar o combate muito mais eficiente:
- Integração nacional entre operadoras para compartilhamento instantâneo de listas de fraude;
- Identificação obrigatória de chamadas comerciais;
- Certificação digital da origem das ligações;
- Ampliação do uso de inteligência artificial para detecção de padrões suspeitos;
- Cooperação internacional contra plataformas de chamadas automatizadas;
- Fiscalização mais rigorosa sobre revenda de chips pré-pagos utilizados em golpes;
- Penalidades mais severas para empresas que comercializam bases de dados obtidas ilegalmente.

Nossa opinião
A decisão da Anatel merece reconhecimento porque demonstra que o problema está sendo levado a sério.
Contudo, existe uma diferença enorme entre combater empresas formais e combater estruturas clandestinas altamente adaptáveis.
Hoje, boa parte dos consumidores não sabe sequer quem está ligando.
Os golpistas mudam números diariamente, utilizam tecnologias de mascaramento e operam em uma velocidade muito maior do que os mecanismos tradicionais de bloqueio conseguem acompanhar.
Por isso, o futuro do combate às ligações abusivas não depende apenas das operadoras.
Ele dependerá cada vez mais da inteligência artificial, da autenticação digital, da integração entre órgãos públicos e da capacidade de identificar comportamentos suspeitos antes que a chamada chegue ao consumidor.
Até lá, uma coisa continua certa: o telefone vai tocar.
E milhões de brasileiros ainda vão olhar para a tela se perguntando:
“Quem será desta vez?”












