Quando a onça morde a lua: O fenômeno celeste na visão dos povos originários

Quando a onça morde a lua: assim muitos povos originários descrevem o eclipse lunar total, também chamado de lua de sangue. Muito além de um espetáculo astronômico, o fenômeno carrega significados culturais, espirituais e sociais profundos. Da Amazônia à Mesoamérica, os povos teceram narrativas sobre a luta entre astros e predadores celestes, transformando a noite avermelhada em um momento de rituais, medos e esperanças.


A última lua de sangue visível da Amazônia

O mais recente eclipse lunar total observado a olho nu na Amazônia ocorreu em 15–16 de maio de 2022. Nessa noite, a lua ficou completamente imersa na sombra da Terra e adquiriu o tom vermelho característico. Para os moradores da floresta, como em épocas passadas, o fenômeno despertou memórias de narrativas antigas, onde o céu se torna palco de forças invisíveis.


A onça celeste na Amazônia

Entre povos Tupi-Guarani, o eclipse é chamado jaxy onhe’ãma. Ele ocorre quando a Onça Celeste tenta devorar a lua. O vermelho da lua cheia eclipsada é visto como o “sangue” do astro. Para salvar a lua, a comunidade realizava rituais de barulho: batiam panelas, tocavam tambores, lançavam flechas e gritavam, acreditando que isso afugentaria a onça.

Entre os Tukano, Desana e outros grupos do Noroeste Amazônico, eclipses fazem parte de um sistema cosmológico que conecta céu, agricultura, pesca e espiritualidade. Durante o fenômeno, pajés orientavam cantos, resguardos e prescrições para restaurar a ordem cósmica. Entre os Kuikuro, no Alto Xingu, relatos etnográficos mostram rituais com cantos, ervas e sopros para proteger a comunidade.

Em todas essas culturas, o eclipse é um momento de ação coletiva. A ameaça cósmica precisa da força da aldeia inteira para ser vencida, reforçando laços sociais e espirituais.


Maias e astecas: o jaguar cósmico

Na Mesoamérica, a imagem do felino que devora a lua também aparece com força.

Entre os maias, a lua, muitas vezes associada ao feminino e à fertilidade, era ameaçada pelo jaguar cósmico durante os eclipses. Códices e tradições orais descrevem cerimônias, cantos e oferendas realizadas para garantir o retorno da luz. Alguns especialistas discutem até hoje o significado de certos glifos, mostrando que o tema ainda é campo fértil de debate.

Já os astecas interpretavam os eclipses como presságios perigosos. No Códice Vaticanus B, aparecem referências ao jaguar celeste, associado ao deus Tepeyóllotl. Havia tabus para gestantes e rituais de autosacrifício entre elites, para reequilibrar o cosmos e proteger a ordem.


Paralelos universais

A ideia de que a lua é devorada por um ser poderoso não é exclusiva das Américas:

  • Na China, fala-se em dragões que engolem o astro.
  • Na Índia, o demônio Rahu é o responsável.
  • Nos mitos nórdicos, lobos perseguem Sol e Lua.

Esses paralelos sugerem que, diante do mesmo espetáculo celeste — uma lua vermelha que parece ferida —, diferentes povos projetaram no céu seus predadores mais temidos: onça, jaguar, dragão, lobo.


Conclusão

Quando a onça morde a lua, a ciência explica o movimento orbital e a sombra da Terra. Mas as culturas ancestrais nos lembram que o fenômeno também é um chamado para a comunidade, para o rito e para a imaginação coletiva. Da Amazônia à Mesoamérica, a “lua de sangue” continua sendo mais que astronomia: é poesia, mito e identidade.


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